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segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Teatro na escola: O teatro do Improviso



Defendi, anteriormente, o caráter catártico do teatro, a sua verve libertária, o seu uso escapista, como se fora (e é, acredito), um veículo que nos possibilita caminhares prazerosos entre um ponto e outro de nós mesmos. Sim, nós não somos uma caixa de chocolate fechada cuja abertura não revelará qualquer surpresa. Somos antes "casas muito grandes, muito compridas” e “[...] é como se morássemos apenas num quarto ou dois” (ANTUNES, 2004). Imagino que a maioria de nós guarda semelhanças com as personagens de Shakespeare e Molière, simultaneamente. Somos dramáticos e cômicos, ao mesmo tempo absurdos e completamente centrados e equilibrados. Somos ambivalentes. E, por uma razão ou por outra, na maioria das vezes nos apresentamos diante dos outros segundo apenas um dos pólos dessa ambivalência. Escolhemos quem queremos ser. Muito porque como escreveu José Saramago “Vivemos numa espécie de alarme em relação a nós mesmos, que talvez seja não querermos saber quem somos na realidade”. Desse modo, somos na maioria das vezes equilibrados - é o socialmente aceitável -, e no restante do tempo, entre os mais próximos, entre quatro paredes (e por que não dizer entre iguais?), menos convencionais – ou mesmo uns perfeitos idiotas. Que vergonha eu não teria se soubésseis de minhas tolices!
Ora, esse autoconhecimento educativo e formador, construtor de personalidades, encontra, ao nível do teatro, grande proeminência principalmente no Teatro do Improviso. Este, afeito à espontaneidade, ao “não pensar” e ao “não ajuizar” das atitudes/condutas, abre espaço a um melhor entendimento e conhecimento do ator que age de improviso, ou seja, no âmbito da escola, dos alunos que submetamos a essa atividade. Não sem sentido Fernando Pessoa escrevera que nada senão o instante o conhecia, pois é no instante, no tempo que age de surpresa, que não nos pensamos e não sucumbimos ao alarme de sermos.
No teatro do Improviso a encenação é livremente criada no decorrer do espetáculo, não havendo falas, nem quaisquer referências cênicas preestabelecidas. Principia-se a ação partindo de um tema, ou de uma contação de história prévia, que os atores e atrizes, e mesmo os espectadores presentes, encenam a seu bel prazer. A ferramenta primordial é a criatividade.
Por esse meio, pela permissão concedida ao aluno de ser sujeito da ação, de falar e agir sem repressão diante de um determinado assunto, logramos outro nível de conhecimento desses mesmos alunos, ao mesmo tempo em que lhes possibilitamos melhor conhecerem-se. Para isso é, no entanto, fundamental que ao final da representação levantemos questionamentos pertinentes com relação às escolhas cênicas de cada um. Não podemos, nem devemos, ficar na cena pela cena. É necessário que se questione, a título de exemplo, por que o aluno A, numa encenação sobre a chegada dos portugueses ao Brasil, representou um indígena assombrado e temeroso e o aluno B, um indígena destemido e antes curioso em relação ao outro. Num exemplo como esse deve, inclusive, trabalhar-se a imagem projetada do colonizador. Como eles o representaram? Por que o representaram assim? Representaram o colonizador todos de igual modo? Por quê? Se não, quais foram as variáveis? E o indígena? Teve sempre o mesmo tipo de representação? Por quê?
O teatro do Improviso abre espaço a inúmeras possibilidades. Tem como principais elementos a “[...] sensibilização e a reflexão sobre problemas coletivos [...], a intervenção crítica e criativa em termos específicos [...], as atividades educativas [...], a expressão artística natural [...], o entretenimento” (MOURA, 2008), sendo, por vezes, “[...] um caminho que se abre para os (as) tímidos (as) [...]” e “Outras vezes [...] para a liberação dos (as) extrovertidos (as) no sentido de desenvolverem uma introspecção necessária” (MOURA, 2008).
Deve atentar-se, no entanto, para o fato de que o teatro do Improviso é antes de tudo um exercício bem ao jeito das brincadeiras propostas por Boal no livro "200 exercícios e jogos para o ator  e o não-ator com vontade de dizer algo através do teatro". Não tem um caráter fechado, de obra/representação terminada. É moldável, incerto, e por isso mesmo de uma fecundidade e ludicidade elogiável, estando muitas vezes, ou descambando muitas vezes, melhor dizendo, no humor, devido às falhas a que está sujeito. A espontaneidade, todos sabemos, é rica em atropelos. E isso é exatamente algo que o professor deve saber gerir. Caso contrário, o exercício se perderá.
Algumas indicações pertinentes à execução do teatro de Improviso são:
·         A contação de uma história antes do tema dado (o que pode ser favorável no sentido de estabelecer uma linha de representação e, por conseguinte, uma espécie de controle da ação), ou a iniciação da representação a partir de um tema (nesse caso a liberdade de interpretação parece de maior plenitude)
·         A preparação do aluno por meio de exercícios/jogos teatrais. Algo que o professor deve tentar promover conjuntamente com os professores de artes.
·         A preparação do aluno ao nível dos questionamentos. É importante que o aluno perceba o alcance do que ali será representado, que ele entenda que há nesse exercício do Improviso muito mais do que uma brincadeira. Há formas de ação, jeitos de pensar, preconceitos, sistemas de referência que serão revelados e que devem ser pensados.
·         A execução nos anos mais avançados, como Ensino Médio, devido a uma maior maturidade necessária na compreensão das dinâmicas.
·         O controle da encenação, na medida do possível. Controle no sentido de que a aula/exercício não se torne, literalmente, uma brincadeira. Para isso concorrem alguns elementos: a preparação dos alunos (exercícios/jogos, visionamento de vídeos demonstrativos), idade dos intervenientes, personalidade dos intervenientes, o meio, a preparação do docente, o tempo de representação. De destacar que sobre alguns desses itens o professor tem, ou poderá ter, total controle, ao passo que outros escapam-lhe completamente. Nos dois primeiros itens – exercícios/jogos e visionamento de vídeos demonstrativos – o educador tem total poder. Depende dele a promoção dessas atividades, quer unicamente na sua disciplina, quer com o apoio de outros professores. Na questão da idade, enfatizo a preferência pela execução dessa prática nos anos do Ensino Médio. As outras questões como personalidade e o meio serão trabalhadas pelo professor, que regra geral, no caso de História, não tem preparação teatral. Essa será, talvez, a maior das dificuldades. Um especial cuidado é requerido no tempo de encenação. Proponho exercícios nunca superiores a 10 minutos. A longa duração dá, não raras vezes, lugar ao desvirtuamento.
·         Atenção à propensão para o humor deste tipo de exercício. O professor deve estar preparado para trabalhar o riso. Por que riram os alunos-espectadores diante daquela cena? A ação do personagem foi naturalmente cômica? Por quê? Tem algo de real no que representou? Ou não? O que provocou o riso? Uma ação cotidiana? Uma fala do personagem? Uma manifestação preconceituosa? Um estereótipo?

Em suma, o exercício do Teatro do Improviso permite abordagens deveras enriquecedoras, principalmente ao nível da promoção do autoconhecimento e do trabalho com sistemas de valores e preconceitos, comportando, no entanto, algumas dificuldades de execução, ora dependentes, ora independentes da vontade do docente. Dessa forma, é aconselhável um trabalho bastante cuidado e meticuloso na sua preparação, devendo o profissional do ensino, na falta de formação teatral, pesquisar e procurar inteirar-se das melhores metodologias e práticas educativas no que à sua execução se refere. Em última análise, o que se destaca é que tal exercício/jogo não pode ficar arredado de um ensino cada vez mais inovador e multidisciplinar voltado para a completude individual e formação cidadã.

Deixo abaixo dois links para vídeos de Teatro do Improviso:

Bom trabalho!


Referências bibliográficas:


MOURA, A. S. . O Teatro de Improviso como prática educativa no ensino de História. In: XIII Encontro Estadual da ANPUH - História e Historiografia: Entre o nacional e o regional, 2008, Guarabira (PB). XIII Encontro Estadual da ANPUH - História e Historiografia: Entre o nacional e o regional, 2008.
O improviso no teatro e na dança. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=AeMca85HfzM>. Acesso em: 29 de dez. 2014.
Teatro do improviso com histórias reais. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=l6DQ-vvL9HE>. Acesso em: 29 de dez. 2014.



 


terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Os banhos na Idade Média

Geralmente quando pensamos na Idade Média, imaginamos uma época suja, cheia de doenças e pestes. Mas, na verdade, as coisas não foram bem assim.
Apesar da cultura monástica medieval associar o banho ao pecado (pois era visto como vaidade), a partir do século XIII a mentalidade sobre a higiene começa a mudar. Integra-se ao cotidiano dos homens medievais, banhos, saunas e termas.
Os registros da época relatam que além dos banhos públicos, havia também banhos privados com banheiras ou tinas instaladas dentro do quarto. Para a limpeza, usava-se água quente, sabão, sais e perfumes.
Os médicos incentivavam essa prática, afirmando que os banhos possuíam propriedades terapêuticas.
No final da Idade Média, a peste negra que assolou a Europa mudou a visão com relação aos banhos. Os médicos não o recomendavam mais por ser considerado um meio de contágio da doença.
A Igreja também reforçou o repúdio à prática por vê-la como incentivo à prostituição, já que nos banhos coletivos misturavam-se homens e mulheres.
Assim, termina a idade de ouro dos banhos e entra em cena a preferência por perfumes e pós para eliminar a sujeira e disfarçar o mau cheiro.

Dicas para o professor:
1. Utilize a curiosidade dos banhos com seus alunos do ensino médio para desmistificar a visão negativa que muitas vezes perdura sobre a Idade Média.
2. Ajude a mãe de seus alunos do ensino básico e aproveite para reforçar a importância de tomar banho. Ah, lembre-os também que não se deve desperdiçar água!

Até breve,
Gláucia Dias.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Jogos de História na Internet, uma ferramenta didática e inclusiva.

Em nossa postagem mensal, temos a internet e seus sites como uma ferramenta de ensino-aprendizagem para a Educação Básica. Em especial nesta postagem, trazemos para vocês um jogo que certamente todos os alunos já jogaram - jogo da memória. Neste caso em particular dos presidentes brasileiros, com uma abordagem voltada para o ensino médio, o jogo da memória relaciona presidentes a realizações ou a características particulares de cada um deles.  Segue o link do site com o jogo: http://revistaescola.abril.com.br/jogo-memoria-presidentes-brasil-historia-737398.shtml    

        






















Organização da turma
- Organize os alunos em grupos de 2 a 6 participantes.
 Capacidades a serem trabalhadas
- Permitir que o aluno identifique as características da gestão dos presidentes brasileiros.
Material
- 13 cartas com imagens dos presidentes e 13 cartas com características especificas de cada presidente.
Desenvolvimento
Cada jogador tem o direito de virar um cartão com a imagem e um cartão com uma característica, ao acertar o jogador tem o direito de fazer uma nova tentativa.

Postagem de Marcos Medeiros (marcos07medeiros@hotmail.com.br)




terça-feira, 18 de novembro de 2014

Hildegard von Bigen, uma "doutora da Igreja" medieval.

Hildegard von Bingen por Morgan Ungerott

Você sabia que na História da Igreja, somente quatro mulheres possuem o título de Doutoras da Igreja? Entre elas, a mais recente recebedora da honraria é a abadessa de Rupertsberg, Hildegard von Bigen, nascida em 1098 d.C.

Sua notoriedade se deu principalmente por suas habilidades e publicações na medicina e botânica, descrevendo e classificando patologias e remédios, sempre relacionando as partes do corpo ao espírito, e utilizando alegorias para relacionar os órgãos, como por exemplo associar o movimento do espírito humano ao cérebro.
Apesar de seus diagnósticos médicos restringirem-se ao parâmetros medievais, Hildergard destaca-se por sua visão global do homem: ela enfatizava não só a importância de tratar a doença, mas defendia uma mudança no estilo de vida tanto para erradicá-la como para prevenir futuros males.

Mesmo sem ter título de médica, Hildegard von Bigen era uma curandeira notável, e sem dúvida suas contribuições foram importantes não só para a Igreja como para o estudo da história e da medicina nos tempos medievais. 
Além disso, ela é tida como representante do feminismo católico no início do primeiro milênio, por dar liberdade às monjas de seus mosteiros, que exerciam atividades de composição, estudo das ciências naturais e escrita.




Dicas para o professor:
1. Nas classes do ensino médio, você pode trazer outras personalidades femininas de destaque na Idade média. Pegue o material, divida os alunos em grupos, e peça para cada equipe, após uma breve leitura, compartilhar com a sala sobre sua personagem.
2. Que tal fazer um caça-palavras com os alunos do ensino fundamental? Você pode usar o nome dos doutores da igreja, suas atribuições e outras palavras que complementam a fixação do ensino sobre a Idade Medieval.

Postagem de Glaucia Dias (glaudiaz@hotmail.com)

Referência Bibliográfica:
SCIENTIFIC AMERICAN HISTÓRIA. A ciência na Idade Média. São Paulo: Duetto, [s.d], n.1, p.60.


quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Teatro na escola: O racismo e outras opressões



Inicio este post falando de atitudes. Estranho? Não. Nós, professores, não trabalhamos apenas conteúdos - trabalhamos atitudes. Sobretudo, as atitudes negativas de nossos alunos. Nessa perspectiva de trabalho usamos conteúdos atitudinais em que procuramos “[...] modificar comportamentos que expressam racismo ou etnocentrismo, preconceito e estereótipo” (FREITAS, 2010, p. 181), sendo a dramatização com troca de papeis entre alunos uma das técnicas avançadas por Itamar Freitas. 
Esse confrontamento consigo mesmo é um artifício sobremaneira propiciador de atitudes positivas como a tolerância, a reflexão sobre si mesmo, o respeito à diversidade, e da ampliação de uma visão crítica das coisas. O teatro, em suma, é um propulsor de criticidade. Contudo, é necessário que o levemos para dentro das escolas, que o usemos de fato como recurso didático de ensino, e que o ajustemos às nossas necessidades. No nosso caso, devo dizer, a História e o teatro vivem desde sempre uma relação de proximidade. O teatro serviu-se desde sempre da História, e por que não a História do teatro?
Num trabalho apresentado na ANPUH/SP em 2010, Danilo Henrique Batista afirma que “[...] a grande maioria dos alunos de hoje em dia não tem interesse pela matéria historia pelo fato de não conseguirem associar os fatos históricos com nossa vida cotidiana [...]”, e prossegue questionando “[...] mas e se eles representassem estes mesmos fatos?” E se eles fossem, acrescento eu, levados a trabalhar conteúdos como a escravidão, a violência doméstica, o bullying?... E se eles fossem guiados no sentido de darem de caras com a realidade que os cerca, e, por esse mesmo meio, levados a pensar e a interagir com o cotidiano?
Seria ouro sobre azul, pois “quando os alunos participam de peças, abre-se a possibilidade de desenvolver a percepção de que eles são sujeitos integrantes de um processo social” (BATISTA, 2010), e suas visões de mundo, junto com eles, crescem.
Minha proposta de hoje é mais adequada para o Ensino Médio. Tem em vista o trabalho com um tema tão corrente no nosso país, mas que, acredito, nunca é demais trabalhar – o racismo.


Passo a passo:

- Coloque seus alunos para assistir este vídeo, disponível no youtube, produzido por alunos da PUC Minas (Todos contra o Preconceito!)
- No final do vídeo questione-os com relação ao que pensaram da representação teatral.
- Problematize os pensamentos dos alunos: Por que os personagens agiram daquela forma? Por que pensam dessa maneira? Como eles, alunos, reagiriam numa situação como aquela? Como acham que seria possível vencer esse preconceito? Já foram eles mesmos alvos de preconceito racial?
- Explique-lhes a ideia de que o Brasil é o país da democracia racial. Pergunte-lhes, em seguida, o que acham disso. O Brasil é ou não o país da democracia racial?
- Após a discussão, solicite como trabalho de casa um pequeno artigo de opinião sobre o assunto.
- Forme quatro grupos de alunos a fim de que eles criem, cada um, uma pequena representação em que ficará bem demonstrada uma opressão. Os temas podem ser racismo, abuso de poder, bullying e violência doméstica. Não esqueça: deve sempre procurar colocar os alunos no lugar do outro. Um exemplo: coloque um aluno branco para experimentar o lugar do afro-descendente.

Nota: Essa apresentação pode ser trabalhada durante o bimestre, podendo ser apresentada ao final para toda a comunidade escolar.

Bom trabalho! 

Postagem de Ricardo Barbosa (ricardoalex_78@hotmail.com)

Referências bibliográficas:

BATISTA, Danilo Henrique. O uso do teatro no ensino de História. Anpuh/SP. Set. 2010.
FREITAS, Itamar. A experiência indígena no ensino de História. In: OLIVEIRA, Margarida Maria Dias. Coleção explorando o ensino - História - v. 21 - Ensino Fundamental. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2010, p. 159-192.
Todos contra o preconceito. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=YlivCCXQAr0>. Acesso em: Nov 2014.